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A Gênese do Meu Desejo


Não foi de súbito, mas um naufrágio lento,

Ver-te deixar de ser mulher para ser templo.

Teus cabelos em ondas, cascatas de mel e breu,

Enroscam-se em meus dedos, ditando que sou teu.

Eles traçam no meu peito um mapa de pecado,

Enquanto o mundo lá fora se perde, silenciado.


Minhas mãos, antes devotas, agora são profanas,

Esculpindo a curva das tuas encostas soberanas.

Teus seios, como frutos prontos para a colheita,

Erguem-se em oferta, na medida mais perfeita.

O bico que desperta ao toque da minha língua,

É o centro do meu culto, onde o tempo mofina.


E quando o toque se aprofunda e a pele incendeia,

Tua voz abandona as palavras e se torna teia.

O que era frase vira o sopro, o ritmo, o som,

Gemidos que vibram em um grave e rouco tom.

Tua melodia ácida, que rasga o meu juízo,

É o hino da musa que me arrasta ao paraíso.


Já não te vejo apenas, eu te bebo, eu te sinto,

Nesse altar de lençóis onde perco o meu instinto.

Musa de carne e fogo, de entrega e de rito,

Onde cada suspiro teu torna o meu prazer infinito.

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