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O Novo Continente do Desejo

 Em mar de rendas e de linho oculto,

Corta a proa o silêncio da alvorada;

Desperta o lençol, em bravo insulto,

À calmaria da carne sossegada.

A nau do meu olhar busca o contorno

Dessa terra que o mapa não contêm,

Onde o sopro da boca, brando e morno,

Dita as rotas que ao teu corpo convêm.


Lançam-se as âncoras nos teus mamilos,

Ilhas de fogo em mar de calmaria,

Onde os dedos, astutos a geri-los,

Faz do toque a mais fina heresia.

As preliminares são tormentas mansas,

Onde a vaga do beijo se derrama,

E nas curvas de líquidas esperanças,

O vento da bauxita acende a chama.


Avança a quilha em busca do estreito,

Onde a humidade anuncia o porto;

Há um gemido que brota do teu peito,

Como o eco de um mar que não jaz morto.

Tua pele é a praia, o chão sagrado,

Que o navegante fustiga com bravura,

No ritmo febril e compassado

De quem descobre a mais divina longura.


Eis que a tormenta ruge no oceano,

O mastro erguido clama pela glória!

Num embate tão doce quanto insano,

Escreve-se na carne a nossa história.

Tua bacia, em vagas de áurea espuma,

Eleva a nau ao cume do infinito,

Onde a razão se esvai em densa bruma

E o mapa se desfaz num longo grito.


Vem, enfim, o dilúvio do regresso:

O gozo, qual maré que transborda,

Um ouro líquido, febril, sem preço,

Que inunda a praia e acalma toda a corda.

Conquistado o país do teu gemido,

Repousa a nau, banhada em brio e sal,

No continente do amor adormecido,

Pois fomos, nesta cama, Portugal.

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